segunda-feira, 4 de maio de 2009

Segurança na pista: Brasil não é rigoroso em testes de segurança






O Brasil vive, nos últimos anos, uma invasão de modelos importados de várias partes do mundo. Além dos já tradicionais vindos da Europa, EUA e Japão, muitos carros coreanos e alguns chineses e indianos tomaram conta das lojas. Isso desperta a dúvida: todos têm qualidade para ser vendidos aqui? O Brasil faz exigências legais com relação a emissões de poluentes, nível de ruído e segurança. Quando uma montadora decide fazer um modelo do zero, ou importar algum (assim como um importador independente), é necessário verificar se o projeto está adequado à legislação. Essa homologação passa por dois processos: um só ambiental, regrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e outro de segurança, sob a batuta do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Tudo leva, em média, seis meses, e os custos são pagos pelo solicitante. O problema é que há uma grande dispersão nesses dois procedimentos. Enquanto os carros devem ser submetidos a testes para demonstrar na prática sua adequação à legislação ambiental, a exigência na área de segurança é bem mais branda. Bastam documentos comprovando que o veículo tem os atributos necessários. O governo não faz nenhum teste.





O responsável pela área de homologação do grupo PSA Citroën, Carlos Campos, afirma que a parte ambiental é mais trabalhosa. "Um teste precisa ser feito com acompanhamento de um agente do governo. No caso da segurança, não. Bastam documentos. No nosso caso, podemos utilizar testes feitos na Europa, que valem aqui no Brasil", conta. Emissões sob auditoria O Ibama designou a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), ligada à Secretaria do Estado de Meio Ambiente de São Paulo, como responsável pela certificação dos veículos. O primeiro passo do solicitante é preencher uma documentação com todos os dados técnicos do modelo, testes realizados e resultados obtidos. Se toda a documentação estiver correta, os testes devem ser feitos em laboratórios credenciados pelo Ibama, com um dinamômetro e uma sonda para medir o que sai do escapamento. Pode até ser feito dentro da montadora, caso o local esteja de acordo com as normas brasileiras. O objetivo é reproduzir um trecho urbano, levando em conta como o carro se comporta nas ruas. Um time de seis engenheiros da Cetesb cuida de toda a papelada e acompanha os testes em loco. De acordo com o gerente do setor de engenharia automotiva e certificação da Cetesb, Renato Linke, os testes podem levar 12 horas. "Realizamos no mesmo dia mais de um ensaio para ver se a emissão do veí-culo não varia muito. Se não der certo, informamos a fabricante e o carro não é liberado. Esse teste chega a custar US$ 1 mil", diz.



No Brasil não há laboratório equipado para fazer testes em veí-culos com tração nas quatro rodas. Nesse caso, os engenheiros viajam para acompanhar o teste no exterior. ‘Temos ainda um acordo com o órgão da Espanha. Quando o modelo vem da Europa, eles fazem o teste para nós. Ou seja, nenhum veículo vendido no Brasil deixa de fazer o ensaio", diz Linke. A parte de ruídos é um pouco mais simples. Linke conta que nem todos os testes são acompanhados, pois os resultados variam pouco. "Esses ensaios são feitos em pistas de testes; com o equipamento correto, não é necessário acompanhá-lo. Porém, quando a empresa não possui uma infraestrutura boa, a gente acaba fazendo o teste." Segurança no papel Com os níveis de emissões e de ruídos em ordem, o Ibama libera um documento de aprovação. Com ele, o solicitante vai até o Denatran para obter o código Renavam do veículo, um processo que inclui muito papel e os arquivos dos testes feitos para comprovar que ele atende o nível de segurança exigido pelo governo brasileiro. Ou não passa. O Denatran disse não constar em arquivos casos de carros que não foram aprovados, ou de modelos recolhidos por falta de segurança. Sérgio Kina, gerente-técnico do Instituto de Qualidade Assegurada (IQA), diz que esse procedimento é uma autocertificação: "É preciso provar, mas não há um teste como na parte ambiental. É apenas por documentação". Se um carro tiver algum problema e a papelada não mostrar, a empresa pode ser punida no futuro. "O Denatran pode pedir mais comprovações, mas não tem como testar no Brasil."

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